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Abrigo para caminhantes na Serra da Arrábida
Professor Francisco Silva Dias
Uma introdução à arquitectura, aos conceitos base do pensamento arquitectónico. A arquitectura como criadora de sensações, espaços, ambientes. A arquitectura como reflexo da sua utilização.
O projecto teve como base uma análise sensorial do local do projecto e uma investigação prática sobre os objectivos e necessidades do espaço a criar.
Desse modo, para melhor compreender os futuros utilizadores do edifício, os caminhantes, durante um dia inteiro percorremos a Serra da Arrábida. Introduzimo-nos na sua pele, vivendo nós próprios as suas experiências e motivações, os seus gostos e vontades no sentido de criar o espaço que mais adequado.
O processo criativo consequente a esta experiência reflecte o espírito do caminhante, a sua vida, as suas necessidades.
O abrigo deve, portanto, maximizar o convívio, oferecer pouco conforto e proporcionar uma relação próxima com o exterior envolvente.
O local escolhido situa-se numa pequena plataforma no topo da falésia, virada a sul, formando ainda uma pequena vertente a norte que esconde o espaço de quem se aproxima por esse lado.
O acesso ao topo da falésia e a entrada no abrigo é portanto possível de ser efectuado sem que se tenha percepção da proximidade do mar.
Um elemento maciço completa o bloqueio da vista de quem se dirige para o abrigo. Esse elemento é rasgado junto ao pavimento e a 1,20m de altura, abaixo da linha de visão, deixando portanto entrever apenas um pouco. O volume prolonga-se para o interior do abrigo, conduzindo o caminhante até ao centro. Deste modo, só no interior dar-se-á a explosão do panorama envolvente.
Pouco após a explosão, um único desejo, o de tudo largar e tudo esquecer. Para tal foi colocado nesse ponto um estrado, de seis metros de comprimento, revestido a madeira, onde os caminhantes poderão de imediato descansar. Utilizarão ainda o estrado mais tarde para dormir nas suas esteiras ou colchões.
O abrigo é constituído pela intersecção de dois volumes sólidos e pesados, revestidos a pedra da região, com uma película branca, limpa e leve, que cobre e delimita metade do edifício. Um outro corpo, branco, marca a separação do volume de instalações sanitárias.
A cobertura foi tratada como um quinto alçado, pois a aproximação ao abrigo é feita a partir de uma cota ligeiramente mais alta, possibilitando a sua visão.
O revestimento exterior do abrigo é no seu volume mais alto em pedra da região, Brecha da Arrábida. Pode-se encontrar este material ainda a revestir o volume da cozinha. A cobertura é em brita feita a partir da mesma pedra, de modo a reduzir o seu impacto visual.
Os materiais constituintes do abrigo e o seu mobiliário devem ser rudes, de modo a assegurar a sua maior duração e que não venham a ser roubados.
O abrigo foi dividido em dois espaços: um local de estar, junto à entrada, com o estrado referido acima, para as dormidas, uma mesa e vista panorâmica para o mar; um outro espaço, de carácter mais prático, com uma cozinha, mesa e cadeiras, e uma instalação sanitária.
Os dois espaços são contínuos, abertos entre si, separados apenas por um pequeno desnível. Ambos têm um pavimento em madeira.
Apenas o espaço da instalação sanitária é dividido em relação ao restante do abrigo.
Uma entrada de luz zenital está localizada sobre o estrado referido anteriormente, em todo o seu comprimento, e ainda sobre a entrada. Uma outra entrada de luz foi colocada sobre o corredor da instalação sanitária.
O acesso ao abrigo, efectuado a partir de um caminho que passa por perto, é pavimentado em brita, feita a partir da pedra da zona, Brecha da Arrábida. A gravilha continua após a entrada, por poucos metros. À direita, um envidraçado proporciona uma visão para o exterior, no sentido do acesso, podendo-se ver apenas a vegetação e o terreno a poucos metros, proporcionando uma ligação estreita com a envolvente.
Junto ao envidraçado da zona de estar, virado para o mar, existe uma faixa de um metro na mesma gravilha, tanto no interior como no exterior.
Ao nível do estrado referido anteriormente e em todo o seu comprimento foi colocada uma janela. Assim, os caminhantes poderão ser acordados pela luz do amanhecer.
O abastecimento de energia será efectuado maioritariamente por painéis foto-voltaicos e acumuladores. A água será fornecida por um furo, a realizar.