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Reconversão do Scalo Farini, área ferroviária desactivada, em Milão.
Professora Valeria Erba, Professor Walter Barbero,
Professora Corinna Morandi, Professor Tomaso Pompili, Politecnico di Milano, Itália
primeiro semestre: Professor José Troufa Real, Lisboa, Portugal
Trabalho realizado em conjunto com Alberto Mendes e Rui Cruz.
Caminhos de Ferro. Importante elemento de desenvolvimento no passado, são ainda no presente, uns dos principais motores de crescimento económico.
Como resultado da falta de um planeamento correcto e claro, que valorize os factores ambientais e sociais, o comboio sempre foi uma barreira ao desenvolvimento urbano normal, criando nas suas margens pedaços de cidade descaracterizados, fragmentados. O ambiente urbano surge junto a este tipo de infra-estruturas de modo degradado e desprestigiante, e a ferrovia é encarada como um factor negativo.
Mas, mais importante, a sua função é a ligação entre as cidades e a troca de fluxos de pessoas e bens.
O projecto pretende tratar a ferrovia tal como um rio: um rio de aço, mas mais que isso, um rio de pessoas e de movimento. A ferrovia deve valorizar a cidade e o seu ambiente. Não virar as costas ao comboio mas aceitá-lo e aproveitá-lo.
Deve ainda ser pensado como uma porta de entrada nos centros urbanos modernos, podendo dignificar a imagem da cidade.
Foram efectuados levantamentos e análises aos mais diversos factores da zona, de modo a conhecê-la a fundo e às suas necessidades e potencialidades. Vários esquemas foram desenhados à mão numa tentativa de compreender todos os seus problemas e dinâmicas.
O programa define para a área a criação de uma nova centralidade, aproveitando a proximidade ao metro (no limite da área de intervenção) e à estação da Ferrovia Nord (cerca de 1km), mas impõe ainda 70% de espaço livre ou verde, o que condicionava bastante o projecto.
Uma centralidade não é composta apenas de bons acessos. Não é igualmente constituída por espaços verdes extensos e mono-funcionais.
O projecto contornou este problema apostando na densidade de construção, no reforço das acessibilidades ao local, na sua pluri-funcionalidade, e no desenho de um espaço urbano de qualidade, articulado e funcional.
O Scalo Farini, estação de mercadorias e reparações de dimensões gigantescas (43 hectares), e local do projecto, foi uma barreira ao normal crescimento da cidade, criando um tecido urbano composto por malhas de diferentes direcções, criando pontos de conflito.
Utilizando o caminho de ferro como elemento central do projecto, foi proposto coser as malhas, de modo a minimizar e cicatrizar o corte. Optou-se por um desenho urbano simples e regular, para uma fácil legibilidade e interiorização espacial.
A opção tomada em coser as várias malhas, realizou-se com o prolongamento dos tecidos a sul e leste. Apresentavam um ambiente bem definido, consolidado, com a presença de diversas funções. Seria apenas necessário um plano de requalificação urbana para estas áreas.
No ponto de rotação entre malhas, foi desenhada uma grande praça monumental sob a ferrovia (principal elemento de composição), que marca decididamente o centro de todo o projecto.
Três ligações foram desenhadas sobre a ferrovia, dando assim continuidade à malha sul, duas viárias e uma pedonal.
As duas ligações viárias estabelecem-se uma sobre a forma de viaduto, e outra em túnel. A primeira faz parte de uma composição arquitectónica que enquadra a grande praça.
Toda a intervenção pretende acentuar o seu carácter urbano, aproximando-se da centralidade pretendida. Para tal optou-se na implementação da rua tradicional, criando os espaços verdes e abertos no seu contexto adequado, e não gratuitamente.
A praça é o ponto central de toda a proposta, assumindo a rotação entre as malhas. Tem como elemento de composição "o rio", que passa por baixo. A praça foi construída e sobrelevada em relação às linhas de comboio, aumentando a ligação entre eles. É um espaço para ser vivido, servir de ponto de encontro, de estar. Monumental, de fácil leitura, organiza em torno de si uma série de ambientes e funções de características diversas, interligados.
Abre-se em relação à ferrovia em dois dos seus lados. Um deles apresenta uma colunata, que se repete à volta das praça nos seus lados construídos. A noroeste é dominada por um edifício "lombriga" que se sobrepõe à linha de comboio e acompanha a praça em toda a extensão. É um edifício de arquitectura austera impondo e salientando a monumentalidade espacial. Compõe, juntamente com a praça, o ponto central do projecto. A nordeste, projectou-se um equipamento cultural de grande dimensão.
O desenho do pavimento da praça deverá ser lido sob três escalas diferentes. Uma grande escala, somente entendida e percepcionada dos pontos mais elevados da praça (do edifício e da esplanada na cobertura do equipamento cultural), que se apresenta sobre a forma de três grandes ondas que flúem no sentido da ferrovia, simbolizando todo o movimento e fluxo das pessoas nos comboios. Numa segunda escala, já perceptível pelo peão, este descobre as pequenas ondas, inseridas nas referidas acima, que induzem na direcção da ferrovia. A terceira escala é composta por várias imagens pixelizadas, que compõem uma sequência de imagens alusivas a pessoas, rios, transportes e a cidade de Milão. As imagens intercalam com aberturas para as linhas de comboio cobertas pela praça. Já junto ao caminho de ferro, o espaço é pontuado por grandes estátuas humanas estilizadas, com uma escala imensa, que fixam o olhar sobre o infinito.
No topo sudeste aberto à ferrovia, o pavimento é rebaixado para evitar a existência de quaisquer elementos que esbarrem a visão.
O prolongamento da malha leste fez-se com quarteirões muito simples em U, que vão até à praça central. A partir deste lado existem duas opções de caminhada em direcção o centro. No primeiro caso, uma larga rua pedonal direccionada para a praça, atravessando os quarteirões. No segundo caso, entramos num espaço de lazer, com muita vegetação, que vai diminuindo com a aproximação à praça, e onde sobressaem alguns elementos. É o caso da passagem aérea e dos carris, que permaneceram no local. Sobre eles já não andam comboios, mas estanhas figuras e peças de mobiliário urbano, que as pessoas podem deslocar. O eléctrico passa dentro deste parque, provocando o ruído característico, animando o espaço. Esta área alberga ainda o museu da ferrovia, que ficará instalado em uns antigos armazéns agora reabilitados.
Caminhando em direcção à praça, entramos noutro espaço, de características distintas. É uma área mais urbana e aberta, com actividades comerciais. Ao fundo apercebe-se já da praça com maior clareza.
Antes de entrar na praça, passamos por um espaço de claustro, de apoio ao complexo cultural. Aqui, uma densa vegetação sobe das caves de estacionamento até à superfície, bloqueando parcialmente a vista para a praça.
A intervenção foi pensada como um todo. Não existem parques, no sentido de espaço verde isolado. Um contínuo verde percorre o projecto, servindo de palco para a junção de várias funções compatíveis, que pudessem durante todo o dia animar a área, existindo assim uma maior vigilância espacial, segurança e conforto.
O arranjo e composição do interior dos quarteirões em U foi pensado e desenhado tendo em conta a pretendida sequência espacial do projecto.
Entradas rasgadas no lado norte dos quarteirões permitem uma entrada, não escancarada mas coada, para estes espaços. Percursos e actividades procuram a permanência dos transeuntes, mas direccionam para sul, na direcção das linhas de comboio e do espaço verde denso referido acima. A meio, o espaço é cortado por um percurso aberto, já referido, em direcção à praça. A transição para o espaço verde mais denso a sul é efectuada através de uma pala que remata o quarteirão, mas que na realidade, por ser de uma grande permeabilidade, puxa na sua direcção.
O edifício "lombriga", com um comprimento de duzentos metros e de altura cinquenta, domina a praça. É composto por dois blocos paralelos que acompanham o prolongamento da malha sul através do viaduto.
Foi pormenorizado o bloco Leste, o que efectua a entrada para a grande praça.
É um edifício multi-funcional, cujos dois primeiros pisos são comerciais, os três seguintes são de escritórios e de serviços e os restantes de habitação.
Nos pisos comerciais o edifício é rasgado por uma arcada em toda a sua extensão. Sobre os três pontos onde se pode atravessar o edifício para aceder à praça existem três enormes rasgões em vidro agrafado, que deixam ver o desenvolvimento das escadarias de acesso do edifício.
Nos pisos superiores, o edifício desenvolve-se em galeria.
Foram estudados quatro módulos habitacionais em duplex para serem implementados no edifício. Os fogos apresentam uma grande simplicidade de concepção e organização, sendo espaços amplos e abertos.
A fachada é regular e uniforme, apresentando uma escala supra-humana. É composta por uma extensa grelha rectangular, dentro da qual se desenvolvem módulos de palas reguláveis. A regulação de cada um destes módulos é personalizável provocando uma animação constante na fachada.
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